Um dos maiores mistérios da história climática da Terra foi explicado: por que a Antártida congelou milhões de anos antes do Ártico?
Durante milhões de anos, a Terra passou por profundas transformações climáticas e geológicas que moldaram os polos como são conhecidos atualmente. Agora, pesquisadores conseguiram explicar um dos maiores enigmas da história do planeta: por que a Antártida desenvolveu uma enorme camada de gelo cerca de 34 milhões de anos atrás, enquanto o Ártico permaneceu sem grandes calotas polares por muito mais tempo.
Um novo estudo internacional indica que a resposta não está apenas nas mudanças da atmosfera, mas também em processos que ocorreram nas profundezas da Terra. Segundo os cientistas, movimentos no interior do planeta elevaram partes do continente antártico, criando condições favoráveis para o acúmulo permanente de neve e o início da glaciação.
Geologia teve papel decisivo no congelamento da Antártida
Por muito tempo, a redução dos níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera foi considerada o principal fator responsável pelo resfriamento global que levou à formação das grandes camadas de gelo.
No entanto, as novas pesquisas indicam que a estrutura geológica da Antártida também foi fundamental. O levantamento do relevo continental criou regiões de grande altitude, onde as temperaturas eram mais baixas e a neve conseguia permanecer durante todas as estações do ano.
Entre os principais fatores identificados pelos pesquisadores estão:
- Elevação gradual da Antártida Oriental;
- Formação de grandes planaltos e cadeias montanhosas;
- Queda das temperaturas em áreas elevadas;
- Acúmulo progressivo de neve e formação das geleiras.
Movimentos no manto terrestre transformaram o continente
A pesquisa aponta que fenômenos conhecidos como “ondas do manto” tiveram influência direta na elevação da Antártida Oriental.
Esses movimentos profundos ocorreram durante dezenas de milhões de anos após a separação entre a Antártida e a África, iniciada ainda no período Jurássico.
Com a elevação progressiva do continente, novas áreas ficaram expostas a temperaturas mais baixas, favorecendo o surgimento de geleiras permanentes.
As transformações geológicas envolveram:
- Separação das placas tectônicas da Antártida e da África;
- Soerguimento do relevo continental;
- Formação do planalto da Antártida Oriental;
- Desenvolvimento das Montanhas Gamburtsev.
Montanhas Gamburtsev ajudaram a iniciar a glaciação
Um dos pontos mais importantes da descoberta envolve as Montanhas Gamburtsev, uma cadeia montanhosa localizada no interior da Antártida.
De acordo com os pesquisadores, partes dessas montanhas ultrapassaram cerca de dois quilômetros de altitude, criando um ambiente onde a neve acumulada não derretia completamente durante o ano.
Esse processo favoreceu:
- Resfriamento das regiões elevadas;
- Permanência da neve ao longo das estações;
- Expansão gradual das geleiras;
- Formação da maior camada de gelo existente na Terra.
Por que o Ártico demorou mais para congelar?
Enquanto a Antártida possuía um grande território elevado, o Ártico apresentava características geográficas diferentes.
Mesmo com o resfriamento global e a diminuição do dióxido de carbono atmosférico, as áreas próximas ao Polo Norte não tinham a mesma combinação de altitude e relevo necessária para formar grandes massas de gelo.
Por isso, as geleiras do Hemisfério Norte surgiram milhões de anos depois.
As principais diferenças entre os polos foram:
- Maior altitude da Antártida Oriental;
- Relevo menos elevado nas regiões árticas;
- Condições mais favoráveis para resfriamento no continente antártico;
- Formação tardia das calotas do Hemisfério Norte.
Descoberta reforça conexão entre interior da Terra e clima
O estudo amplia a compreensão sobre como processos geológicos profundos podem influenciar mudanças climáticas na superfície do planeta.
A pesquisa mostra que a evolução do clima terrestre não depende apenas da atmosfera, mas também de fatores como movimentação das placas tectônicas, formação de montanhas e alterações no relevo.
Para os cientistas, compreender essas relações ajuda a reconstruir o passado da Terra e a entender como sistemas naturais respondem às grandes transformações ao longo de milhões de anos.
